sábado, 16 de janeiro de 2010

Os Simplistas

Rodrigues de Almeida

Passou-se na avenida do Edifício Planta Tower, no bairro Renascença II, área nobre de São Luís, que fui, sozinho, depois de uma manhã corrida, beber uma cerveja, – quando ainda o sol das duas horas rachava o céu, – num barzinho-quiosque que fica no centro de uma pracinha.
Tocava-se, bem baixinho, uma música instrumental de orquestra de Bumba-meu-boi, e eu gostava.
Enquanto eu dava poderosas goladas, numa veemência de quem tem sede exorbitante, lia superficialmente os ofícios, declarações e mais “meio-mundo” de outros documentos oficiais, que por pouco tempo me fez distraído, pois deu canseira, dediquei-me somente a cerveja.
Depois de vários goles, não pensava eu em nada, isso é uma virtude de quando bebo só; pensar em nada sempre me der prazer, é como se fosse um descanso para as idéias, pois nem só o corpo pode descansar, já que enquanto este dorme a mente sonha: sonhar também causa canseira.
Notei ao meu lado dois idosos que também bebiam; estes, em voz alta, conversavam sem cessar sobre política, e isso me distraiu, acordou-me do transe, zanguei-me.
Não podia eu fazer nada, pois estava num bar, e é burrice pedir silêncio num bar.
Nada fiz senão me conformar. Fiz-me atento a conversação.
Um trecho:

― Você acredita em democracia plena nesse pais, Elias?
― O Quê, Zé Maria? Hipocrisia plena? Há-há-há-há...
― Há-há-há... (apertaram-se as mãos)
― Ditadura disfarçada. Isso sim!
― Não: putaria plena! Há-há-há-há
― Vão legalizar a maconha: senvergonhice plena!

(...)

― Temos direito de voto secreto, mas não temos direito de não votar.
― Só temos obrigações.
― Aqui, direito é obrigação.
― E a impunidade?

(...)

― E o Sarney?
― Há-há-há-há...
― Há-há-há-há...

3 comentários:

- Samyle Lindsay - disse...

hsuahsuahushauhsuahushuahsua
Adorei a conversa dos dois e concordo plenamente com o 'direito, aqui, é obrigação'.
Poxa, por mim eu nem votaria esse ano! :/
E o Sarney? hahaha

Anna disse...

Eu votaria neles pra presidência!
beijos

Delmar disse...

Gostei das "poderosas goladas", o texto tá bem escrito.
abraço