sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O Que dizia os Cotovelos?

Rodrigues de almeida

OLAVO preferiu ficar afastado do resto da classe quando num acampamento na praia, e, sozinho, sentou-se numa cadeira improvisada de tronco de árvore, na areia, próximo às ondas do mar. Enquanto a turma se divertia próximo à fogueira, Olavo se pôs a meditar; trazia consigo um bloco de notas e lápis (era um instante conveniente pra compor mais um de seus poemas, pra publicar na sua coluna do jornal da escola). Olavo demorava na contemplação da paisagem; a frente dele havia um cenário deslumbrante: O mar sereno e a lua. Mas atrapalhava-se com o barulho dos que faziam baderna, numa muvuca que fizeram os colegas a poucos metros. Não tinha ele concentração para escrever. O que durou a contemplação da paisagem só lhe rendera um rabisco:

“O lua, o mar"


Fora interrompido pela algazarra que aumentava a cada minuto. Resolveu parar pra continuar assim que acabasse a zorra.
Quando, enfim, a paz lhe veio, silenciosa, pôs os olhos de volta ao bloco de notas e fez menção de voltar a escrever, mas fora interrompido por uma voz que surgiu por trás de si:
― Olavo! ― a voz estridente a lhe chamar causou-lhe sobressalto. Na verdade foi um grito seguido de bater de palmas (fato que fizera o pobre escritor desequilibrar-se, deixar cair o bloco de notas e desajeitar os óculos no rosto). Apanhou o bloco de notas e colocou por cima das pernas, olhou por sobre o ombro o autor do berro. Era autora: Patrícia, a loirinha de aparelho dentário e rosto tomado por espinhas. A menina, sem ser convidada, nem bem recebida – que deu a mostra o rosto áspero de Olavo – sentou-se perto de Olavo, apertou-lhe a mão e disparou-se a falar:
― Olavo, eu li o jornal de quinta-feira; sua coluna é a minha preferida. Cara... aquele poema... meu deus... muito bom!
― Obrigado ― agradeceu ainda tomado pelo susto.
Não demorou nem um segundo pra que Patrícia “desembestasse” a babujar:
―Ah! Já sei! Veio escrever no seu diário!
Olavo, vacilante:
¬― É que...
Patrícia, interrompendo de novo:
― Nossa! Você está escrevendo mais uns de seus versos! É uma poesia? Posso ficar aqui esperando você terminar?
― Olha...
― È que fico ansiosa toda vez, antes de ler o jornal; e agora fiquei ansiosa pra ler antes de ser publicada.

Olavo hesitava; estava sem graça; confundia-se com as palavras da loira que falava velozmente e ofegante.
A loirinha continuou a importuná-lo:
― Ah! O poema de quinta-feira, Olavo, me lembrou quando meu pai falava de literatura pra mim; achei-o semelhante a um poema que diz assim:

“O amor é fogo que queima sem arder...
É ferida que sara sem se ver...
È um contente descontentado...”

Olavo fez uma cara de quem viu uma assombração, recolheu os ombros e quase fez um ponto de interrogação com as sobrancelhas.
Patrícia hesitou. Colocou a mão no queixo, os olhos pro céu e, desconfiada, continuou:

“O amor que desatina sem doer...
É o não contentar-se de contente...”

Olavo, horrorizado com a tentativa desastrosa de Patrícia recitar Camões, pegou o lápis e fixou os olhos no bloco de notas, ajustou os óculos no nariz e se pôs a escrever, mas fora novamente interrompido:
― Minha mãe também ama literatura; ela sempre recitava, na minha infância, poesias do famoso Poeta... Poeta... É... Chico... Chico Tolete... Francisco Toledo! Isso! Francisco Toledo é o nome do poeta.
Olavo hesitou e buscou na mente alguma lembrança do tal poeta, mas percebeu que nunca ouvira falar de tal sujeito (Nem eu). Desconfiou da existência do poeta. Voltou-se para a loirinha e antes de abrir a boca para falar-lhe, ela, outra vez o interrompeu:
―Ah! São ótimas as poesias dele. São voltadas pra crianças, mas...
A garota disparou-se a falar incansavelmente. Olavo estava na iminência de explodir em desespero. Dividia a atenção entre a algazarra que resurgira, a loirinha faladeira, e o bloco de notas. A loirinha continuava a falação sem se cansar. Olavo enrubesceu a testa e fez bico, demonstrou agastamento; mas a loirinha parecia não enxergar as notáveis vertigens do poeta, e nem se importava se era ouvida ou não, continuava a falar-lhe num ritmo impressionante.
A impaciência de Olavo dera lugar à uma fúria notável pelo tremor frenético do olho direito, que dera lugar a uma cólera evidente (ofegava). Olavo agarrou o bloco de notas com as mãos trêmulas e o posicionou, ― com mau-jeito, ― por sobre as pernas; inclinou o tronco até chegar com a cabeça perto do bloco de notas e, ignorando a loira, com muito esforço, se pôs a escrever com furor. O lápis corria papel e produzia um som audível à loirinha que, por fim, notou a impaciência do escritor. Com um movimento largo, Olavo bateu com a ponta do lápis no bloco de notas e cessou a escrita (parece que esta ação servira para dar o ponto final ao texto). Patrícia colocou a mão no rosto e se mostrou envergonhada pela situação constrangedora: Olavo com os óculos quase caindo do rosto, corpo trêmulo (o escritor parecia um epilético). Fora uma cena espantosa. Olavo colocou a mão na testa e suspirou. Pegou o bloco de notas que estava caído, arrancou-lhe a folhinha que escrevera e a lançou longe.
― Você está se sentindo bem, Olavo? – a loirinha perguntou baixinho, ainda um tanto envergonhada, quando viu Olavo cabisbaixo e ofegante e com as mão cobrindo o rosto.
Olavo tirou as mãos do rosto e revelou uma seriedade que parecia disfarçar o desconforto e disse:
― È só uma dor de cabeça, nada demais.
―Quer um analgésico?
― Não... Não precisa... Eu já vou me recolher, só preciso descansar.
Patrícia, ainda espantada pela cena esquisita, desejou boa noite para Olavo que, sem correspondê-la, rapidamente se levantou e se retirou.
Sozinha, Patrícia demorou numa meditação. Mas de súbito se pôs a procurar o rascunho excluído pelo poeta, pois lhe despertou curiosidade em saber o que escrevera Olavo. O vento carregou pra longe o pedaço de papel e patrícia não o conseguiu achar. Sem êxito na caçada, a loirinha deixou o local onde estava a pouco com o escritor e foi se misturar com a turma que conversava em volta da fagueira.


No dia seguinte...

No amanhecer, antes de o sol se mostrar por completo, um pescador, perto do local do acampamento, caminhava com suas tralhas de pescar nos ombros, quando notou um flutuante pedacinho de papel que lhe prendera a atenção, largou as tralhas no chão e apanhou a folhinha, pôs-se a ler:

Ó lua, Ó mar...
Aqui do cais,
Só céu, só mar.
Do que mais
Posso falar?

Ò poema pela metade,
Desculpe-me por não tratar de fazê-lo,
Pois travei vão combate
Com palavras que diziam os cotovelos.

2 comentários:

Samyle Lindsay disse...

Que menina irritante!
Fala pelos cotovelos!
huasaushauhsauhsash

Adoro estes teus contos :D

Vieira Calado disse...

Olá, amigo!

Estava a ver a imagem da rua, ao lado

e até parece como as que cá havia.

Havia

porque agora foram para as amaricanices

e estragaram tudo!

Um abração